A história de quem faz parte da história: Conheça Flavio Almendra

1907673_825751707452032_922678021_o


Por Lucas Rodrigues

Nascido no dia 1º de junho de 1967, filho de pai médico e mãe dona de casa, Flavio Almendra já carregava o destino de ser pioneiro desde sempre: foi o primeiro bebê a nascer na Casa de Saúde São Marcelo, que na época inaugurava o seu berçário.

Crescido nas ruas do Jardim Botânico, Almendra teve uma infância tranquila e sempre ligada ao esporte. O garoto, que fabricava o seu próprio carrinho de rolimã, sempre demonstrou interesse pela prática de atividade física:

“Cresci nas ruas do Jardim Botânico nas décadas de 70 e 80. Jogava bola na rua, fabricava e andava de carrinho de rolimã. Tinha o Parque Lage como quintal de casa, então estava sempre subindo em árvores, escalando a pedreira, andando no mato, nadando na cachoeira… sempre dando prioridade para os esportes ao ar livre.” – relembra.

O primeiro contato de Flavio Almendra com as artes marciais se deu pelo Judô, aos 6 anos de idade. O garoto frequentou por 4 anos as aulas que eram ministradas no Clube Militar, pelo professor Amadeu Filho.

Porém, diferente do que muitos possam imaginar, este não foi o período determinante para que Almendra mergulhasse de cabeça no mundo da luta.

Aos 12 anos de idade, atuando como atleta de Remo no Clube de Regatas Vasco da Gama, Almendra vivenciou uma experiência desagradável, mas que mudaria totalmente o rumo de sua vida.

“No ano de 1980 eu comecei a remar pelo Vasco da Gama. Nessa época frequentava a praia do Leblon, mais precisamente o Posto 11, onde meu irmão mais velho era amigo dos salva-vidas. E foi lá que conheci a minha primeira namorada. Estava tudo bem, até o dia em que um grupo de garotos da região se reuniram e me agrediram covardemente, pois não aceitavam aquele namoro. Segundo eles, meninas do Leblon deveriam namorar meninos que também eram do Leblon. E apesar de ter levado desvantagem na briga, ainda machuquei gravemente um dos meus agressores, que precisou ser internado.”

aeba9ba5-7032-4e9f-8a5c-907b405aae51
Flavio, em 1980, ano do incidente. O jovem estudava no Colégio Guido de Fontgalland (Foto: Arquivo Pessoal)

A triste situação acabou lhe gerando alguns traumas. Convivendo com o medo, Almendra viu a necessidade de buscar algo que o fizesse recuperar sua auto-estima e retomar o controle de sua vida. E foi aí que, em 1982, dois anos após o incidente, Flavio conheceu o Boxe Tailandês:

“Aquela situação me provocou traumas e um grande medo da minha reação em certas situações. Daí a necessidade de procurar uma arte marcial para recuperar o controle e a auto-estima. Em 1982 comecei a treinar Boxe Tailandês na Academia Souza Reis, com o professor Vágner Coelho.” – conta Flavio.

Desde então, Almendra nunca mais parou. O jovem viu nas artes marciais o que queria fazer para o resto de sua vida. Com sede de aprendizado, Flavio transitou pelas mais variadas modalidades, sempre buscando absorver ao máximo o que cada uma tinha para lhe oferecer:

“Me tornei aficcionado pela luta. Após o Boxe Tailandês, treinei Taekwondo, Capoeira, Full-Contact, Aikidô, Boxe, Luta Livre, Jiu-Jitsu… tudo. Chegava a realizar 3 treinos por dia, 6 dias por semana. Além de praticar, também sempre fui estudioso e curioso quanto as regras, limites, records e etc..” – conta.

9ece055a-73ba-4fda-b872-c92e72dcbe62

E apesar da aptidão para artes marciais, Flavio Almendra afirma que nunca se viu como um talento nato. Para ele, o sucesso nas competições foi conquistado devido à sua obstinação e dedicação nos treinamentos:

“Nunca fui um grande talento, mas sempre fui um abnegado no treino. Acredito que poucos treinavam tanto quanto eu na época. E assim obtive bons resultados, conseguindo a marca de 27 vitórias em 30 lutas na carreira.” – afirma Almendra.

67222cc9-9471-4f86-91a3-c1232d176c02
(Foto: Arquivo Pessoal)

Diferentemente dos tempos atuais, Almendra conta que não havia glamour sobre os lutadores e tampouco o fácil acesso a informações e equipamentos específicos das modalidades. O que lhe movia, na verdade, era simples e puramente o amor e fascínio pelo mundo das artes marciais:

“Não existia glamour. Nós éramos estereotipados. Era aquela história de que lutador é “burro” e “bruto”. Sem contar que também não havia internet. Então o conhecimento era muito empírico, tínhamos pouco ou nenhum acesso a informações ou equipamentos de qualidade na época.”

39a79915-e4f3-4e34-86b9-b1a0b4f8d759
(Foto: Arquivo Pessoal)

E foi este amor pelas artes marciais que levou Flavio Almendra a conhecer o universo da arbitragem. Durante uma competição de Boxe, Almendra conheceu o renomado treinador de árbitros Paulo Godinho, responsável pela formação de grande nomes, como Daniel Fucs:

“Em 1989 tive contato com Raff Giglio (professor de Boxe). Eu e meu mestre Vágner fizemos com ele um curso de aperfeiçoamento de técnicas de mão por 3 meses e foi aí que me encantei pelo Boxe. Após o curso, surgiu o convite para que eu estreasse numa programação no Clube Federal, onde conheci o maior treinador de árbitros do Brasil e que viria a ser o meu mentor na arbitragem a partir daquele momento, mestre Paulo Godinho. E logo após essa luta no Clube Federal, me transferi para Academia Nobre Arte do Mestre Claudio Coelho.”

0e145132-3f93-4c4b-900e-02da09245607
Flavio Almendra e Claudio Coelho (Foto: Arquivo Pessoal)

O início da caminhada de Almendra como árbitro de combates aconteceu no Boxe Tailandês. Após destacar-se no curso de arbitragem, o faixa preta começou a mediar combates e logo foi ganhando seu espaço:

“Quando me formei faixa preta de Boxe Tailandês, para fazer o exame, eu precisava também fazer o curso de arbitragem. E por já estar estudando na parte de Boxe, consegui me destacar e logo fui convidado para participar de eventos da então recente Federação de Muay Thai do Estado do Rio de Janeiro, a primeira federação no Brasil, que ajudamos a fundar.” – disse.

200b6a57-0747-46e7-8f88-f96b00e04500
(Foto: Arquivo Pessoal)

Se destacando no Muay Thai, Flavio Almendra rapidamente se viu arbitrando outras modalidades. Seu início nas artes marciais mistas praticamente se confunde com o início da própria modalidade no país. E já no seu princípio de carreira, Flavio arbitrou em grandes eventos, como o Shooto, ainda nas suas primeiras edições:

“Uma coisa leva a outra e, quando vi, estava arbitrando algumas lutas de Vale-Tudo. Se pudesse destacar alguns eventos desse meu início, destacaria o Shooto 1, 2, 3 e 4, que na época era realizado em Niterói pelo professor Tuniko.”

89641607_3383739011653276_3211197174335406080_o
Flavio Almendra passou por quase todos os grandes eventos do país (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde então, Flavio Almendra arbitrou nos maiores eventos do país. E assim como os combates épicos que mediou, suas atuações também entraram para a história. Hoje, Almendra é referência e consolidou-se como o maior nome da arbitragem do MMA nacional. Reconhecimento que o fez romper barreiras e chegar à TV.

O bom trabalho na arbitragem fez Almendra chegar à TV

Seu primeiro trabalho na televisão foi em 2014, na novela Malhação. O convite surgiu de forma inesperada, feito pela autora da novela, que fazia aulas com Almendra, sem ele imaginar a sua profissão:

“Sempre dei aula no Jardim Botânico, onde a Globo era antigamente. E há alguns anos, uma autora de novela veio treinar comigo. Eu sequer imaginava que ela era autora, porque não costumo perguntar nada pessoal para os meus alunos. Acredito que quem faz aula, quer deixar os problemas do dia-a-dia lá fora e relaxar, descarregar. Mas percebi que ela sempre prestava atenção e até mesmo anotava o que eu falava. Frases motivacionais, histórias sobre minha caminhada, ela anotava. Até que, um belo dia, ela veio até mim, contou que era escritora e queria contar a minha história na nova temporada de “Malhação”.” – recorda Almendra.

De início, Flavio pensou que tudo se trava de uma brincadeira. Mas, para sua surpresa, o convite da autora era real e logo o árbitro se viu trabalhando como coordenador técnico na novela:

“Eu no início achei que era brincadeira. Mas a minha surpresa foi quando me ligaram e disseram que eu havia sido aceito para ser o coordenador técnico da novela. Então passei a ajudar em tudo. Preencher textos, tentando transformar os diálogos mais fiéis possíveis à realidade da luta. Também treinei parte do elenco, como Arthur Aguiar, Felipe Simas, Isabella Santoni… foi muito bacana.”

Árbitro de MMA ensina muay thai em Malhação e elogia o ator Felipe ...
Almendra durante as gravações de “Malhação” (Foto: Arquivo Pessoal)

O resultado deste trabalho foi um sucesso estrondoso. Pela primeira vez em 20 anos, a “Malhação” bateu a novela das 21h em IBOPE, além de vencer diversos prêmios internacionais. Tudo isso culminou em um retorno da temática na temporada de 2016, que também contou com o árbitro na equipe.

O bom trabalho de Flavio Almendra agora nas telinhas rendeu outras diversas participações em obras da emissora:

“Em paralelo a “Malhação”, um colega que também trabalhava na Globo me indicou para a minisérie “O Caçador”, com o Cauã Reymond, onde prestei o trabalho de assessoria técnica. Após isso, vieram outras novelas, como “A Regra do Jogo”, “Força do Querer”, “Malhação” novamente em 2019 e por último, “A Dona do Pedaço”, onde ajudei a coreografar a parte de luta.”

Rock e Paixão se enfrentam MH - Televisão
A última aparição de Almendra na TV foi na novela “A Dona do Pedaço” (Foto: Divulgação/Globo)

Outro capítulo importantíssimo na vida de Almendra foi a criação da equipe de arbitragem Fight One, cuja sua base era formada pelos parceiros de longa data da Liga de Muay Thai Brasil, fundada em 1999. Dentre os membros da equipe, estavam grandes nomes como Wagner Túlio, Nauro Tosta e Alessandro Souza.

Tudo começou quando, no ano de 2011, atuando pelo Jungle Fight, Flavio Almendra e seus companheiros de arbitragem se viram diante de uma situação complicada. Inciou-se uma discussão sobre uma possível interferência do dono da franquia sobre os resultados das lutas:

“Após alguns anos, em 2011, estávamos todos trabalhando no Jungle Fight. Eu, Alessandro Souza, Ricardo Lanzellotti e Nauro Tosta. E havia uma grande discussão se o dono do Jungle exercia ou não pressão sobre os árbitros e resultados do evento.”

Jungle Fight no DAZN 96 consagra Natalia e Max como novos campeões ...
Almendra atuando pelo Jungle Fight (Foto: Território Tupiniquim)

Para acabar com essas especulações, os profissionais decidiram criar a Fight One. Segundo Flavio, essa seria uma maneira de mostrar ao público a soberania da arbitragem, mostrando profissionalismo e seriedade. Somente assim, a discussão se daria por encerrada:

“Para darmos uma resposta clara ao público e aos amantes de MMA, decidimos dar um nome e padrão a nossa equipe. Mostrar profissionalismo, criar uma marca. E no saguão no aeroporto de Congonhas surgiu a Fight One. Queríamos que todos entendessem, em definitivo, que não haviam “cartas marcadas”. Poderia até haver erros, mas nunca haveria dolo.” – conta o árbitro.

Almendra ainda reafirma que, em momento algum, o dono do evento em questão interferiu nos resultados dos combates. Muito pelo contrário:

“O dono do evento, muitas vezes tratado como alguém excêntrico, nunca fez nenhuma pressão sobre nosso trabalho, pedindo em favor desse ou aquele atleta. Em algumas decisões polêmicas da arbitragem, ele sempre esteve ao nosso lado.”

Com vitória do Brasil sobre Argentina, Jungle Fight 99 fica ...
(Foto: Divulgação/Jungle Fight)

E com milhares de combates arbitrados, é de se esperar que Flavio Almendra tenha se deparado com algumas situações um tanto quanto inusitadas ao longo desses anos de trabalho. Dentre as mais variadas ocorrências, o árbitro não hesitou em apontar a “fuga” de um atleta no meio da luta como a situação mais inusitada que ele já vivenciou:

“Fui convidado para arbitrar um evento de MMA em Juíz de Fora/MG. Um atleta que era da cidade, porém não estava vivendo um bom momento na carreira, tentou me intimidar durante o combate. Visto que aquilo não surtiu efeito, o mesmo simplesmente pulou a grade do cage e foi embora na metade do round. Acredito que eu tenha sido o único árbitro no mundo a interromper uma luta literalmente por abandono do adversário.”

Flavio Almendra em ação (Foto: Divulgação/Circuito Talent MMA)

Extremamente respeitado e visto quase que de forma unânime como a maior referência de arbitragem de MMA no país, Almendra possui uma bagagem invejável e um histórico de grandes conquistas. Apesar disso, o árbitro afirma que não se sente 100% realizado profissionalmente. Segundo ele, uma oportunidade de arbitrar no UFC é o que lhe falta para que isso aconteça:

“Se dissesse que sim (sobre ser realizado profissionalmente), estaria mentindo. Tenho uma linda carreira, mais de 30 anos, milhares de lutas arbitradas. Arbitrei verdadeiras guerras, nunca perdi o controle de um combate e nunca nenhum atleta se machucou dentro do meu ringue ou cage. Conheci praticamente todo o Brasil e também alguns lugares lá fora. Mas de fato faltou a cereja do bolo, que é o UFC.”

Mesmo lamentando por nunca ter arbitrado no Ultimate, Almendra diz não se arrepender das escolhas feitas e afirma que hoje a sua única preocupação é estar sempre preparado para exercer seu trabalho:

“Cheguei a deixar de assistir ao evento (UFC) por causa dessa mágoa, mas fiz uma escolha e tive que arcar com as consequências. Deus sabe de todas as coisas e ponho minha vida em suas mãos. Cabe a mim estar preparado. O resto é com ele” – afirma.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Discreto, Flavio Almendra acredita que não há melhor forma de se promover do que fazendo um bom trabalho. Distante de redes sociais e contrário à ideia de “convencer” aos demais sobre a sua competência, o renomado árbitro preocupa-se apenas em manter o alto nível de suas atuações:

“Fiquei um velho rabugento, não sei mexer com redes sociais. Não gosto de auto-promoção, me vender como se fosse um produto, não sei fazer esse tipo de coisa. Meu mestre sempre me dizia: “Faça o seu melhor e deixe que os outros reconheçam seu valor. Nesse dia, você será realmente bom!”. Então sigo isso. Basta dizer que desde que o POP (Prêmio Osvaldo Paquetá) passou a ser por voto popular, eu fui indicado 6 vezes e só ganhei 1.”

Thomas Almeida, Talita Treta e Coliseu EF são os principais ...
Almendra foi eleito “Árbitro do Ano” pelo Prêmio Osvaldo Paquetá em 2013 (Foto: Carol Correia)

Sempre ativo, é de se imaginar o quanto a pandemia da Covid-19, que vem impondo uma pausa forçada aos profissionais de luta, afeta Flavio Almendra. Mas apesar de reconhecer o momento difícil, o árbitro demonstra a visão otimista de sempre e enxerga esse período como um exercício de reflexão e aprendizado:

“Essa parada obrigatória está nos fazendo repensar sobre muitas coisas. Reavaliar nossas urgências e prioridades. Hoje tenho aproveitado para estudar, ler e tentar entender meus reais propósitos.” – conta.

Mas quando tudo isso passar, o cenário das artes marciais pode esperar um Flavio Almendra mais ativo do que nunca. Perfeccionista e hiperativo, como o mesmo se define, o carioca espera colocar em prática diversos projetos, além de seguir arbitrando, claro:

“Este ano será a minha estreia como coordenador geral de eventos. Já tenho alguns desafios que estão só aguardando a oportunidade de acontecerem. Também quero continuar arbitrando, pois é o que mais amo fazer. Tenho um projeto há mais de 15 anos, que é o de promover um campeonato de MMA amador, o Brutus MMA. Um evento para promovermos a maturação de novos talentos do MMA, treinando novos árbitros, jurados, cronometristas, delegadores, treinadores… essa sempre foi a minha bandeira! Sei que muita gente não percebe e não valoriza a amizade e os esforços, então entendi que o que nós fazemos é para nós mesmos. Não se deve esperar nada de ninguém, a não ser de nós mesmos.” – finaliza.

Um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s